O facilitador português [+]

O mercado português valoriza drasticamente mais o chico-espertismo, o facilitador, do que o mérito, o talento, a competência.
Tal explica as enormes dificuldades e entraves provocadas por quem tem cargos de poder, de chefia, que ganha especial expressão em lugares de função pública.

O resultado é um país pobre, pobre na riqueza, pobre na meritocracia. Um país em que quem quer concretizar algo procura de imediato um facilitador, disponibilizando-se a esse pagar qualquer preço, ao invés de se fazer rodear de profissionais competentes, que, evidentemente, são inclusive vistos como um empecilho e, não poucas vezes, mal pagos.
O universo da construção e imobiliário é disso uma evidência, com projectos de processos infindáveis nas secretárias dos gabinetes de Câmaras Municipais e entidades competentes que se pronunciam por tudo e por nada, pedidos de serviços simples, desde a ligação de água a electricidade, sem tempo definido. Mas, não só. São muitos os amigos e amigas, talentosos, que vejo, ano após ano, à procura de pequenas migalhas para continuarem a exercer a sua profissão e fazer face às suas despesas básicas, sem perspectiva de progressão, nem de legítimo enriquecimento.

Um mal endémico que nos atrasa, nos faz desistir de fazer, de construir, em suma, de avançar enquanto colectivo.

Dez meses de pandemia já foram suficientes para nos provar que tudo permanecerá igual, ou, como ouvia esta tarde a Carmo Afonso defender, ficar ainda pior.

O pé português “no fundo do mar”, que Jorge Palma eternizou, lá permanecerá, consolidado por tanta gente afogada na sua mediocridade.

Programa de rendas acessíveis [+]

Os ‘programas de rendas acessíveis’ de Lisboa e Porto ficaram aquém do desejado, como expectável.Tal prova que não bastam boas intenções, sendo necessário encontrar equilíbrios entre proprietários e arrendatários sempre que a idea passa pela intromissão entre ambos. Ao valor baixo, o facto de condicionar contratos de arrendamento por 5 anos, retrai que tal medida tenha sucesso.Sempre defendi que a melhor forma do Estado – através de entidades nacionais ou Câmaras Municipais – interferir positivamente na oferta da habitação, passa pela construção de mais e melhor habitação pública, bem como pela promoção e apoio a cooperativas de habitação que, infelizmente, entraram em desuso aquando a facilidade de crédito na banca. O aumento dessa oferta diminuirá a carência e, simultaneamente, ajudará a regular o valor do preço no mercado. Desde que tenho memória que Portugal tem um grave problema de falta de habitação – direito esse consagrado na Constituição -, tendo nos últimos anos sido agravado pelo aumento exponencial do preço das casas.Medidas mais eficazes, tardam.

Publico.pt

Poluição do Rio Ferreira [+]

O facto do poder local em Portugal ser extremamente compartimentado (dividido que está em pequenas zonas administrativas), e as Áreas Metropolitanas terem perdido influência (quiça para justificar a regionalização), a que se soma uma série de entidades regionais e nacionais que pouco ou nada fazem (como é o caso da Parque das Serras do Porto), resulta num território extraordinariamente mal tratado e em contínua destruição. Tal, não daria pena, não fosse o facto de o nosso território ser, sem acção irresponsável humana, tão rico e diversificado. Mas é. Ou melhor, era.O Porto é rodeado por interessantes serras e rios, todos eles ao total abandono, ou tomados de assalto por interesses ligados à indústria, em particular da celulose. O Vale do Couce, atravessado pelo Rio Ferreira, é um desses paraísos naturais totalmente destruído, sendo um espelho do que refiro, da falta de poder e interesse pela riqueza ambiental que poderíamos ter e usufruir. Esta fotografia, captada por Pedro Quezada, com quem desde miúdo percorri grande parte daquele território, deveria envergonhar qualquer responsável político, sendo um reflexo da nossa pouca cultura.A monocultura do eucalipto, bem como a transformação dos nossos canais de água em esgotos industriais, seguem dentro de momentos.

Prémios de Turismo [+]

Portugal não é o melhor destino turístico, nenhum país que trata o território desta maneira o será. E, convenhamos, nunca o foi.Estes prémios e rankings – cujos critérios sabe-se que, não poucas vezes, são pagos -, iludem-nos para uma realidade que não existe, servindo para mera promoção e propaganda de agentes e entidades ligadas a um sector actualmente em crise. Por exemplo, com a falta de turistas, as principais cidades portuguesas se esvaziaram de pessoas e de interesse, colocando a nu a sua real dinâmica enquanto centros de vivência, de crítica, económica, social e cultural, que é, agora mais perceptível, pobre.Andamos entretidos e inebriados com a surpresa que o turismo trouxe às nossas cidades, turismo esse responsável pela valorização, não poucas vezes, de aspectos que fomos deixando cair – sendo o edificado o seu exemplo mais evidente.No entanto, continuamos pelo meio sem debater, pensar e concretizar estruturas e modelos de cidade que preservem identidade e vida própria para além do turista que vem e vai. Com o momento actual político, promovido por soundbytes, likes e polarização inflamada das redes sociais, a massa crítica empobreceu. O debate sobre cidade é praticamente inexistente, sendo aparentemente tudo e só Economia. Com todos os aspectos negativos conhecidos de uma pandemia, um aspecto positivo destes momentos poderia ser o tempo que a mesma nos dá para diminuir ritmos, expôr problemas, reflectir, e concluir onde se pode melhorar.Contudo, e a cada partilha de um qualquer ranking que vejo, concluo que continuaremos a seguir o modelo de sempre, aguardando apenas que os aviões voltem a voar.

Publico.pt

Avenida Brasil e Montevideo [+]

Há medidas subtis que se tomam para resolver grandes problemas. A CM Porto, em vez de insistir na ideia tonta dos drones, optou, em articulação com a CM Matosinhos, por restringir o acesso automóvel na marginal ao fim-de-semana. Uma medida simples, que se saúda, e que estou seguro que se irá manter.

Portugal encontra-se ao nível da mobilidade extremamente atrasado face aos restantes países Europeus, tanto ao nível de território como urbano, bastando estar-se atento a Espanha para se encontrar um excelente exemplo a seguir. Lisboa tem dado alguns sinais nesse sentido, mas ténues e lentos, deixando-se bloquear pela pressão pública onde o automóvel ainda se sobrepõe a todos os interesses. No Porto, a mobilidade tem sido, a meu ver, onde o actual executivo mais dificuldades tem demonstrado, ao contrário de outras áreas de acção onde se tem notado um esforço de inovação.

Intervenções datadas como a que actualmente se está a operar na Avenida Fernão Magalhães, arruamentos com constantes alterações de orientação de sentido – por vezes têm-se dificuldade em perceber qual a última marcação do piso -, pouca acção na restrição do automóvel, permissão excessiva de veículos turísticos (que alívio tem sido andar pela cidade sem sightseeing bus e tuk-tuks), etc,… têm demonstrado que há muita coisa a mudar no modo de definir e pensar mobilidade no Porto.
Uma das intervenções que mais polémica gerou, sendo unanime a opinião de não ter corrido bem, foi a realizada ao longo das Avenidas Montevideo e Brasil que, os fins-de-semana, têm provado que se poderia reduzir o trânsito ali existente nos restantes dias da semana. Uma medida tão simples como esta que apresento, na qual se assumiria em definitivo que passaria a haver uma faixa de rodagem automóvel com apenas uma via em cada sentido, permitiria a criação de um corredor de árvores entre a actual ciclovia e o tráfego automóvel. Ganhar-se-ia um importante corredor verde e área permeável (é impressionante a extensão de área pavimentada entre as praias e a primeira linha de construção), bem como se aumentaria, e muito, a segurança na ciclovia. Quanto à desculpa do costume que tal provocaria constrangimentos ao trânsito pelo ritmo dos transportes públicos, e apesar de haver alternativas de desenho nas zonas de paragem, eu respondo: mais constrangimentos criam os que não usam os transportes públicos!
(penso sempre nisso quando dirijo atrás de um autocarro).

#mobilidade #porto

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‘Porto por Ponto.’ [+]

Uma das novidades para 2020 será o programa ‘Porto por Ponto.’ na Rádio Manobras, que se pretende ser um momento de reflexão, elogio e crítica de tudo o que se vai fazendo, ou deixando por fazer, na cidade do Porto.

Ontem gravámos o primeiro programa, no qual fizemos um balanço do ano que agora termina. Irá para o ar na primeira semana de Janeiro.

O programa terá uma frequência semanal, contando, para além da minha, com a participação de Ana Carolina, Luís de Sousa e Miguel Januário, com condução de Hélder Sousa.

Acompanhem o programa em: http://www.porponto.pt

📷 Miguel Januário
#rádiomanobras #porto

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Lapa e Lordelo do Ouro [+]

Dos projectos ontem lançados, que se saúdam, destacaria a criação de habitação a renda acessível na freguesia de Lordelo do Ouro que, se vier a ser alvo duma competente reflexão arquitectónica, urbana e social, terá um efeito positivo na cidade envolvente que, como sabemos, tem apresentado gravíssimos problemas ao nível do tráfico de droga, entre outros.

O sucesso desta intervenção só será como tal possível se for multidisciplinar, caso contrário, e como tem sido frequente, tratar-se-á de mais um caso isolado que apenas mitigará o problema de habitação de algumas famílias.

Rendas acessíveis [+]

A forma eficaz de equilibrar o mercado imobiliário é oferecer habitação a valor acessível, tal só possível com um forte e responsável investimento público e/ou através de cooperativas de habitação, que por cá nunca tiveram uma longa e saudável longevidade. Ambas têm falhado a toda a linha, ora por um Estado pouco ágil e empenhado, ora por Municípios com pouca visão de futuro.

Temo que, uma vez mais, quando se conseguir responder, seja um pouco tarde, havendo muitos portugueses que entretanto se vão endividando acima do valor que o seu imóvel valerá – de tal sobrevalorizado que actualmente o mercado se encontra.

UIVO #9 [+]

Na próxima sexta-feira, dia 6, inaugura a 9ª edição da ‘Uivo – Mostra de Ilustração da Maia’, na qual tenho a honra de participar a convite da Cláudia Melo, numa edição sob o tema ‘território’.

Estarei na belíssima companhia de Ana Aragão, Ana Luisa Garcia, Ana Seixas (Pato Lógico), Andrés Sandoval (Pato Lógico), Catarina Sobral (Pato Lógico), Clara Não, Cláudia Salgueiro, Daniel Moreira, David Penela, Elleonor, Fahr (Filipa Frois Almeida e Reis Hugo), Federico Babina, Francisco Laranjo, Joana Estrela, José Miguel Cardoso, Julio Dolbeth, Karen Lacroix, Leonor Violeta; Luís Cepa, Manuel Marsol (Pato Lógico), Mariana Malhão, Martinha Maia, Pedro Cavaco Leitão, Rodrigo Carvalho e Ana Duarte, Roger Ycaza (Pato Lógico), Rui Vitorino Santos, EF Sama, Sphiza, Susa Monteiro (Pato Lógico) e Vasco Mourão.

Uivo 9 – Mostra de Ilustração da Maia /
Curadoria: Cláudia Melo /
Organização: Câmara Municipal da Maia – Pelouro da Cultura /
Fórum da Maia /
De 6 de Dezembro a 23 de Fevereiro /
Entrada livre /

#uivo #ilustração #cmmmaia #maia

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