Matadouro/ (fim) [+]

30 de maio de 2018

Matadouro /

À excepção dum breve momento numa entrevista a Carlos Machado e Moura e Alexandra Areia para o Jornal dos Arquitectos, há sensivelmente 2 anos que não falo publicamente do Matadouro e do projecto que desenvolvemos. Conheci desde o início o caminho que o processo seguiu e quis com o meu silêncio que tal se desenvolvesse com toda a normalidade. Como aconteceu.
Faço-o hoje, como modo de encerrar em definitivo este tema do qual não conto voltar a falar, respondendo assim às inúmeras chamadas, mensagens, perguntas e dúvidas que me foram chegando, em particular das pessoas que desde o primeiro momento estiveram do nosso lado e que me merecem este testemunho, sincero, transparente.
Obrigado.

***
Na preparação para a campanha autárquica de 2013 fui contactado pelo Rui Lage para integrarmos uma equipa de reflexão sobre o antigo Matadouro Industrial do Porto, dado que o então candidato do PS, Manuel Pizarro, tinha idealizado para aquele espaço um centro dedicado ao Audio Visual e Novas Tecnologias. O desafio era nós (Garcia-e-Albuquerque), enquanto atelier de Arquitectura, realizarmos uma proposta de intervenção em conjunto com diferentes agentes e críticos da cidade. Para além da grande amizade que me une a Rui Lage, sei ter sido importante o trabalho que já estávamos a implementar na reabilitação do centro da cidade bem como o facto de ter nascido e crescido em Campanhã, e o que essa experiência diária poderia trazer ao debate em plena campanha pós Rui Rio. Tal foi concretizado e apresentado.
Manuel Pizarro não venceu, mas veio a formar coligação com Rui Moreira e, cerca de dois anos depois, contactado pelo próprio, somos convidados para desenvolvermos um projecto que iria transformar o paradigma da zona oriental da cidade: a reconversão do antigo Matadouro Industrial do Porto.

A relação de trabalho com Rui Moreira e Manuel Pizarro foi desde o primeiro momento extraordinária, que se foi fortalecendo e que da minha parte se mantém com ambos até hoje. Os primeiros momentos foram de experiência, conhecimento aprofundado do local e várias reuniões a fim de se encontrar soluções e parceiros de investimento. Tal fez-nos ser – a mim e ao Luís Albuquerque Pinho com quem partilho atelier e autoria nos projectos de Arquitectura – algo mais para além de meros projectistas. Participamos ativamente em reuniões, fomos ao exterior reunir com interessados em investir naquele local, isto porque, talvez acrescida duma ligação sentimental ao local, o desejo de ver concretizado este projecto – tão vital para toda uma zona da cidade há décadas esquecida – esteve sempre muito para além do interesse e vaidade, se quiserem, da concepção arquitectónica.
Após os primeiros meses de trabalho é tomada uma decisão fundamental para a transformação do percurso a seguir: Rui Moreira conclui que é a Cultura que será a grande âncora de toda a intervenção e Paulo Cunha e Silva assume em definitivo a responsabilidade pelo processo.
Inicia-se aí a fase mais extraordinária da minha curta carreira profissional – poucos são os que têm o talento de simplificar e fazer, e deixar fazer, que tinha PCS.

O trabalho era contínuo, por vezes em lugares tão improváveis como um início de noite no Candelabro, ou pouco mais tarde no Passos Manuel, onde nos cruzávamos por mero acaso e, sem burocracias e trejeitos provincianos, falávamos abertamente do futuro do Matadouro.
Esse momento único, irrepetível, terminou abruptamente, ironicamente no dia em que nos reunimos pela última vez em plena nave central do antigo Matadouro Industrial do Porto e fechamos o projecto que, meses mais tarde, foi apresentado na Trienal de Design de Milão e poucos dias depois por Rui Moreira no próprio Matadouro. A esses dois momentos, retratados na publicação ‘Porto Before Porto’, seguiu-se a apresentação aos vereadores em reunião extraordinária de executivo, a par de Nuno Valentim que apresentou o seu projecto para o Mercado do Bolhão – 100 anos depois, Mercado e Matadouro de novo juntos em discussão numa reunião Camarária.

Eis que, pouco tempo depois, e num momento em que estávamos a trabalhar com grande intensidade no desenvolvimento do projecto, voltei a ser contactado para uma reunião, desta vez pelo então adjunto do vereador do urbanismo, Pedro Baganha. Aí, em Julho de 2016, numa sala algo inóspita e apenas com a presença do próprio, foi-me comunicado que o executivo tinha mudado de estratégia para o antigo Matadouro Municipal do Porto e optado por lançar um concurso para que o investimento e exploração fosse de âmbito privado. Compreendi, evidentemente que compreendi. A decisão mantinha de pé todo o essencial, que o local fosse reconvertido e com isso transforme uma zona tão ávida de investimento e consequente revitalização.
Raros são os finais felizes mas, e um pequeno desabafo, neste caso, e por tudo o que nos dispusemos fazer e fizemos, penso que teríamos merecido outro trato. Adiante.

Não escondo que foram umas férias de Verão algo amargas. Percebi aí que tinha estreitado uma ligação emocional com aqueles edifícios que conheço de os percorrer em criança e onde, em segredo, me refugiava sempre que queria afastar-me da vertigem dos dias. Também pelas pessoas com que me cruzava, e cruzo, diariamente na rua, animadas por verem um dos seus envolvido directamente nessa transformação (o nosso atelier é precisamente em frente). Mas tal não fazia sentido, todo esse envolvimento emocional que deixei crescer – até por tudo o que foi acontecendo ao longo desses 3 anos de intensa ligação àqueles cerca de 27000 m2 – foi um erro que cometi, fruto duma imaturidade de quem vive a imaginar algo com uma intensidade desmedida. Como tal tratei de resolver de imediato um problema que eu próprio tinha criado, pelo que o Matadouro ficou desde então como uma questão à margem dos meus dias.
Depois foi o momento de se acertar os termos da rescisão que decorreu amigavelmente e de modo extremamente correcto de ambas as partes. O nosso caminho no processo tinha chegado ao fim com a mesma serenidade com que se iniciou, de bem com todos e com a consciência de termos feito um trabalho do qual nos orgulhamos.

Ontem foi apresentado aquele que será o futuro Matadouro, num projecto conjunto dos grupos de arquitectos Kengo Kuma (JP) e OODA (PT), e investimento com exploração por 30 anos da Mota-Engil.
Tinham-me referido que haveria muito do nosso projecto neste projecto que agora se apresenta. Normal seria, dado que o nosso projecto serviu de base ao concurso. Mas se tal poderia deixar-me satisfeito por se sentir uma marca do nosso esforço naquilo que será construído, tal se desvanece por questões que se colocam ao nível de autoria – mas não será o momento e local de falar sobre isso.
Pelo que vi do que foi apresentado há algo que posso e devo referir, a imagem que irá ter o futuro Matadouro está nos antípodas do que imaginamos, concebemos, pretendíamos e consideramos mais acertado para aquele conjunto arquitetónico que herdamos. Mas tal não invalida que não seja um caminho válido e, quem sabe, mais de acordo com o momento.
Que corra bem, e correrá, é o meu desejo.

O Matadouro tal como o vivemos e imaginamos será apenas uma Memória, tal como o meu envolvimento nesse processo.
E como todas as memórias, efémera.

Longa vida ao Matadouro, longa e prospera vida a Campanhã e às suas gentes.

***

Fim.

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