O facilitador português [+]

O mercado português valoriza drasticamente mais o chico-espertismo, o facilitador, do que o mérito, o talento, a competência.
Tal explica as enormes dificuldades e entraves provocadas por quem tem cargos de poder, de chefia, que ganha especial expressão em lugares de função pública.

O resultado é um país pobre, pobre na riqueza, pobre na meritocracia. Um país em que quem quer concretizar algo procura de imediato um facilitador, disponibilizando-se a esse pagar qualquer preço, ao invés de se fazer rodear de profissionais competentes, que, evidentemente, são inclusive vistos como um empecilho e, não poucas vezes, mal pagos.
O universo da construção e imobiliário é disso uma evidência, com projectos de processos infindáveis nas secretárias dos gabinetes de Câmaras Municipais e entidades competentes que se pronunciam por tudo e por nada, pedidos de serviços simples, desde a ligação de água a electricidade, sem tempo definido. Mas, não só. São muitos os amigos e amigas, talentosos, que vejo, ano após ano, à procura de pequenas migalhas para continuarem a exercer a sua profissão e fazer face às suas despesas básicas, sem perspectiva de progressão, nem de legítimo enriquecimento.

Um mal endémico que nos atrasa, nos faz desistir de fazer, de construir, em suma, de avançar enquanto colectivo.

Dez meses de pandemia já foram suficientes para nos provar que tudo permanecerá igual, ou, como ouvia esta tarde a Carmo Afonso defender, ficar ainda pior.

O pé português “no fundo do mar”, que Jorge Palma eternizou, lá permanecerá, consolidado por tanta gente afogada na sua mediocridade.

Prémios de Turismo [+]

Portugal não é o melhor destino turístico, nenhum país que trata o território desta maneira o será. E, convenhamos, nunca o foi.Estes prémios e rankings – cujos critérios sabe-se que, não poucas vezes, são pagos -, iludem-nos para uma realidade que não existe, servindo para mera promoção e propaganda de agentes e entidades ligadas a um sector actualmente em crise. Por exemplo, com a falta de turistas, as principais cidades portuguesas se esvaziaram de pessoas e de interesse, colocando a nu a sua real dinâmica enquanto centros de vivência, de crítica, económica, social e cultural, que é, agora mais perceptível, pobre.Andamos entretidos e inebriados com a surpresa que o turismo trouxe às nossas cidades, turismo esse responsável pela valorização, não poucas vezes, de aspectos que fomos deixando cair – sendo o edificado o seu exemplo mais evidente.No entanto, continuamos pelo meio sem debater, pensar e concretizar estruturas e modelos de cidade que preservem identidade e vida própria para além do turista que vem e vai. Com o momento actual político, promovido por soundbytes, likes e polarização inflamada das redes sociais, a massa crítica empobreceu. O debate sobre cidade é praticamente inexistente, sendo aparentemente tudo e só Economia. Com todos os aspectos negativos conhecidos de uma pandemia, um aspecto positivo destes momentos poderia ser o tempo que a mesma nos dá para diminuir ritmos, expôr problemas, reflectir, e concluir onde se pode melhorar.Contudo, e a cada partilha de um qualquer ranking que vejo, concluo que continuaremos a seguir o modelo de sempre, aguardando apenas que os aviões voltem a voar.

Publico.pt